‘Não é trivial empreender no Brasil’

Neste 1º de janeiro, Ingrid Barth se torna a primeira mulher a assumir a presidência da Associação Brasileira de Startups. Nesta entrevista, a economista fundadora da fintech Linker fala sobre inovações no mercado financeiro, desafios jurídico-tributários para o ecossistema de inovação e empreendedorismo e as questões de diversidade e inclusão no setor.

Posted mercredi, décembre 28 2022
‘Não é trivial empreender no Brasil’

Leaders League Brasil: A partir de 1º de janeiro, você será a primeira mulher a ocupar a presidência da Associação Brasileira de Startups. Quais os principais desafios você enxerga pela frente?

Ingrid Barth: Muitos, sempre tem bastante desafio. Se não tivesse eu talvez não teria nem aceitado o cargo, porque assim acho que dá para mostrar um bom trabalho. São dois grandes goals que eu particularmente quero transformar na Associação. Eu sempre conto um pouco dessa historinha: a Associação tem quase 10 anos já; ela vem fazendo um trabalho muito bom com relação a ser brasileira de fato, a gente vem fazendo um trabalho muito bom de comunidades. A gente tem o StartupON, que é um evento que a gente faz em vários estados do Brasil, fora aqui, em São Paulo, porque a gente sabe que São Paulo já tem uma força muito grande em relação a empreendedorismo, inovação, tecnologia e startups de uma maneira geral. Então a gente faz esse esforço para levar esse conhecimento empreendedor para fora de São Paulo. E a gente vem fazendo isso já há bastante tempo. Tem os líderes de comunidades já bem estabelecidos praticamente em todos os estados do Brasil. Acho que agora o próximo passo que a gente está construindo e que vai ser o foco da associação é o de relações governamentais. Criar essas pontes, estreitar o relacionamento com órgãos reguladores, com autarquias, ministérios, Poder Legislativo para que a gente consiga mostrar o bom trabalho que as startups estão fazendo; para que a gente consiga pensar políticas públicas para fomentar o ecossistema de empreendedorismo, inovação, tecnologia e startups; para facilitar a vida desses empreendedores; e para que a gente consiga também pensar em novas regulamentações ou renovar as já existentes, para que de fato abra caminho para inovação e que novas startups surjam, para que a gente consiga transformar o nosso ecossistema em cada vez maior e mais forte.  Esse é um dos nossos pilares para a próxima gestão. Posso te dar a minha palavra que vou dedicar muito da minha energia neste pilar.

O outro pilar é a questão da diversidade. A gente ainda tem índices bastante vergonhosos em relação a diversidade no mercado de startups. Infelizmente é um reflexo até da parte educacional: a gente ainda tem poucas mulheres, negros, representantes da comunidade LGBTQIA+ nos cursos voltados a tecnologia. Mas não são só desenvolvedores que criam startups. Tem uma questão cultural também que a gente precisa mostrar; tem uma questão também de formação, de despertar o interesse dos jovens em áreas mais voltadas a ciências, matemática, tecnologia e engenharias. E ter outros cursos de capacitação que mostrem para essas pessoas que não são só desenvolvedores ou CTOs; que existem áreas de negócio, áreas de comunicação que também são muito demandadas dentro das startups e que esses profissionais podem ser super aproveitados. De uma maneira ou de outra a diversidade pode acontecer dentro do ecossistema que não seja única e exclusivamente ligado aos times de tecnologia, porque essa é uma mudança de longuíssimo prazo, mas que de uma maneira ou de outra traz diversidade também. Então são esses dois pilares.

 

Você falou um pouco sobre a nacionalização da Abstartups. Na sua opinião, excetuando São Paulo, quais os principais polos de inovação no Brasil hoje?

Florianópolis, Belo Horizonte, Recife. Acredito que esses três são os mais representativos hoje.

 

Sobre os investimentos futuros da Abstartups em relações governamentais. Neste sentido qual o papel do poder público no incentivo a este ecossistema?

É superimportante. Você não consegue inovar sem que todos os agentes estejam super alinhados. E todos os agentes de inovação significa os empreendedores, quem vai consumir esses produtos e serviços no final do dia, o poder público, a economia de uma maneira geral. E o poder público não é única e exclusivamente o regulador. Você tem a questão dos impostos, você tem aí o Marco Legal das Startups, você tem as regulações de uma maneira geral... São vários pontos que de uma maneira ou de outra esbarram no poder público. Quando você fala em poder público, engloba muita coisa, e se não estiver muito alinhado, a coisa não acontece. E o que é estar alinhado O poder público – até na parte de fomentar a educação, porque a gente tem uma parte muito representativa da educação que é pública – não tem que inovar, ele não é o agente da inovação neste caso específico das startups. O agente da inovação é a startup, é o empreendedor. Só que ele precisa saber o que está acontecendo para pensar no que precisa ser mudado, pensando por exemplo numa regulamentação. A gente vê isso muito no setor financeiro – eu sou empreendedora do setor financeiro. O setor financeiro está sendo excepcional neste sentido. Vamos pegar o Banco Central: todas as inovações que estão acontecendo são de cunho tecnológico: PIX, Open Finance. Houve várias inovações na regulamentação que possibilitaram que esse número enorme de fintechs acontecesse. Só que o regulador nunca fez nada antes da inovação acontecer. Ele ouvia o setor, observava o setor, então criava, por exemplo, uma consulta pública. De posse desses dados da consulta pública, sentava, fazia o trabalho do regulador, então divulgava como seria essa nova legislação, essa alteração na legislação. É por isso que a gente vai focar nisso. Nós somos o canalizador dessas novas informações que estão acontecendo em relação às startups, e somos responsáveis por levar isso para o regulador, que não tem nem braço para ficar falando com cada uma das startups para entender as especificidades de cada uma das startups de cada uma das indústrias. Então é o nosso papel fazer essa ponte de maneira organizada para mostrar para o regulador o que precisa ou não ser alterado.

 

Como você avalia a participação feminina no cenário brasileiro de startups?

Ainda é muito tímida. Somos boas, mas somos poucas. Precisamos reforçar em número a nossa participação. E tem vários motivos: questões culturais, educacionais, a gente ainda tem poucas mulheres nessas graduações e nos cursos que são mais voltados para tecnologia, ciências, engenharias. Além disso, a gente tem um pouco mais de aversão a risco – é uma tese pessoal. A mulher pensa muito na família, muitas vezes. Então você empreender ou aceitar uma proposta de uma startup mais early stage, onde você não tem os benefícios, onde você não tem ainda a CLT... A mulher tem um pouco mais de aversão a tomar esse risco inicial. Muitas vezes ela prefere ir para um lugar onde ela tem um pouco mais de segurança neste sentido. Essas condições de trabalho acabam não atraindo tanto as mulheres. Tem a questão também de como você constrói vagas afirmativas na hora que você vai fazer essa divulgação. Tem vários motivos para este cenário, e tem várias teses a respeito disso também. Mas a gente precisa melhorar, definitivamente.

 

Que estratégias as startups podem adotar para se destacar junto a fundos de Venture Capital e Aceleradoras?

Organização. Acho que é uma coisa importante, principalmente quando a gente fala de KPIs. Você tem que saber quais são os KPIs importantes para o seu setor e ter bons KPIs, obviamente. Ser organizado o suficiente para que você consiga mostrar de maneira organizada esses KPIs. E se preocupar em encontrar o seu próprio market fit. É interessante falar sobre isso, porque depois que eu vendi o Linker, minha fintech, comecei a colocar os meus pezinhos de maneira bem ainda tímida no investimento anjo. E eu comecei a ver bastante pitch – bastante pitch deck e pitch mesmo, o empreendedor fazendo pitch. E é muito interessante ver que muitas vezes o empreendedor ainda está construindo a tese, ainda não validou várias coisas, não validou a dor, não validou o MVP, não encontrou o product market fit... É muito complicado você ir a um fundo institucional sem várias dessas cosas validadas. Com certeza você vai tomar um “não”. Então, para não desgastar essa relação que está se iniciando, para não perder o seu tempo, pega esse tempo, valida o máximo que você conseguir, acha ali minimamente o seu product market fit, tenha seus primeiros clientes, que vai ficar muito mais fácil de você conseguir seus investidores.

 

Quais são os principais desafios e entraves jurídicos e regulatórios para as startups no Brasil atualmente?

Depende do setor. Como startup pode ser de todas as indústrias possíveis, cada uma tem a sua especificidade. Mas eu diria que empreender no Brasil é muito difícil de uma maneira geral – seja em startup ou não. Aí eu acho que principalmente a parte legal tributária muito difícil. Não é trivial empreender no Brasil por questões tributárias principalmente.

 

O que podemos esperar da Abstartups logo neste primeiro ano de mandato?

Reforçar principalmente o time de relações governamentais. Começar a ter uma presença bem forte em Brasília, principalmente nas pautas que têm envolvimento de tecnologia e inovação. Agora as pessoas vão começar a observar discussões mais voltadas a pautas políticas que possam beneficiar as startups de uma maneira geral.