Ivone Silva: "Taxas de juros nos bancos representam uma âncora para a economia"

Ivone Silva é a primeira mulher negra a ocupar a presidência do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, uma das maiores entidades sindicais do país. Nesta entrevista exclusiva, ela fala sobre conjuntura político-econômica, diversidade no setor bancário e algumas das reivindicações da categoria.

Posted Friday, December 17th 2021
Ivone Silva: "Taxas de juros nos bancos representam uma âncora para a economia"

Leaders League: Os lucros somados dos principais bancos brasileiros (Bradesco, Banco do Brasil, Itaú e Santander) atingiram uma alta histórica, chegando a R$ 23,1 bilhões no 2º trimestre de 2021. Como avaliar esta performance nas instituições financeiras em um contexto de profunda crise econômica?

Ivone Silva: Não é novidade que os bancos no Brasil praticam as mais altas taxas de juros do mundo e que isso representa, por um lado, uma verdadeira máquina de lucros para as empresas do setor, por outro, uma verdadeira âncora para a economia, na medida em que bilhões de reais são retirados do bolso dos consumidores, das empresas e do governo em direção ao caixa dos bancos. As taxas de juros de modalidades como cartão de crédito e cheque especial passam de 300% ao ano, e mesmo linhas de crédito com baixo risco para os bancos como consignado para trabalhadores do setor privado apresentam juros exorbitantes próximos de 40% ao ano. O que representa um fator relativamente novo a impulsionar o lucro dos bancos nos últimos anos é um forte processo de corte de gastos vinculado a uma intensa aplicação de novas tecnologias no setor que reduz postos de trabalho e estruturas físicas de atendimento aos clientes. Desde 2013, somente os cinco principais bancos, reduziram mais de 80 mil postos de trabalho e fecharam quase 5 mil agências bancárias, transferindo os clientes para realizar operações nas plataformas digitais ou nos correspondentes bancários. Com isso, o total de despesas de pessoal das instituições financeiras teve queda de 27% em termos reais entre 2013 e 2020. No mesmo período as outras despesas administrativas que englobam aluguel, água, energia, gás, transporte, processamento de dados, serviços de terceiros, segurança, publicidade, depreciação, amortização, manutenção e conservação de bens materiais, entre outras apresentaram queda real de 19%.

 
Você é a primeira mulher negra a ocupar a presidência do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região em quase 100 anos de história. No dia a dia dos bancos, mulheres negras também vêm levantando questões importantes, como equiparação salarial – segundo dados do Dieese, mulheres pretas e pardas chegam a ganhar 25,8% a menos que a média salarial dos bancários. Quais são os passos a serem dados para combater as desigualdades raciais?

O Sindicato sempre defendeu a igualdade de oportunidades tanto de gênero, raça e orientação sexual. Ter uma mulher negra à frente dessa entidade é um símbolo no movimento sindical. 

Na categoria bancária, as mulheres ocupam 49% do total de postos de trabalho e recebem, em média, 22% menos que os dos homens.  Essa realidade é ainda mais injusta quando se observa que as mulheres bancárias têm escolaridade maior que a dos bancários. 77% das bancárias têm nível superior completo, enquanto entre os homens esse percentual cai para 74%.  Em seus Relatórios Anuais de Sustentabilidade os bancos apresentam algumas informações que ilustram a desigualdade com a qual as mulheres são tratadas nestas instituições. Essa desigualdade também inclui os trabalhadores negros. De acordo com dados da RAIS do Ministério do Trabalho, as pessoas pretas nos bancos são apenas 3,3% e as pardas apenas 20,4%. Em relação a remuneração, as mulheres negras nos bancos recebem o equivalente a apenas 63% do que recebem os homens brancos.

Bilhões de reais são retirados do bolso dos consumidores, das empresas e do governo em direção ao caixa dos bancos.

Tal desigualdade é fruto de uma sociedade machista e sem cultura de relações compartilhadas, e o resultado é que as mulheres ficam um tempo maior fora do mercado de trabalho. Além disso, as mulheres têm taxa de desemprego mais elevada e são as maiores vítimas do trabalho terceirizado e precarizado difundido com a reforma trabalhista. Isso reforça a extrema desigualdade do mercado de trabalho, provocando o aumento da miséria feminina, aumentando a dependência financeira das mesmas e, consequentemente, a violência contra as mulheres. As mulheres também serão as mais penalizadas, por exemplo, com a Reforma da Previdência, pois suas contribuições são mais instáveis e consequentemente a maioria das mulheres hoje se aposenta por idade em função da dificuldade de acumular tempo de contribuição. 

Nossa luta é diária contra as instituições financeiras e estamos durante todo o ano em reuniões, mesas de negociação e Campanhas Nacionais Unificadas reivindicando melhores condições de trabalho. 

 

Como os bancos poderiam contribuir para o desenvolvimento econômico e redução das desigualdades? Qual o papel dos bancos públicos neste sentido?

O Brasil vive um caos social, político e econômico. São mais de 13,7 milhões de brasileiros sem trabalho (13,2% no último trimestre móvel) e 25 milhões trabalham por conta própria. A renda do trabalhador despencou 9% no último ano, segundo dados da PNAD do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A economia brasileira passa por um momento grave, com forte retração da atividade econômica, elevação do desemprego e queda na renda das famílias. Privatizar os bancos públicos não nos permitirá sair da crise, pelo contrário, irá aprofundar a recessão na medida em que enfraquece o mercado interno e a infraestrutura social e econômica que nos fizeram avançar na última década. Qualquer estratégia de governo minimamente comprometida com os interesses da população brasileira deveria estar centrada no papel dos bancos públicos no financiamento da indústria nacional, na aquisição da casa própria, na agricultura familiar e na melhoria da infraestrutura. 

Ter uma mulher negra à frente dessa entidade é um símbolo no movimento sindical.

A Caixa Econômica Federal abriu edital para concurso exclusivo para Pessoa com deficiência (PcD), de modo a preencher a reserva de vagas determinada em lei. Quais os desafios para inserção de PcD no mercado de trabalho?

A contratação de PCDs é uma conquista da luta dos empregados da Caixa e das entidades sindicais que vêm denunciando há anos o descumprimento da lei de cotas dentro do banco. Essa é uma luta dos trabalhadores. A direção do banco, ao contrário, manteve o descaso com os PCDs e os deixou um ano e meio, durante a pandemia, sem o Saúde Caixa, atacando o direito à saúde dos trabalhadores. A situação só foi revertida com a mobilização e luta dos bancários na Campanha Nacional 2020. A igualdade de oportunidades é uma reivindicação da categoria e estamos mobilizados para garantir os direitos de PCDs na categoria bancária. 

 

Quais as principais pautas e reivindicações dos trabalhadores bancários neste momento? O que podemos esperar para os próximos 12 meses?

Temos muitos desafios para os próximos anos e sei da responsabilidade de estar à frente de uma entidade tão importante e representativa, como o Sindicato, que historicamente luta em defesa dos direitos dos trabalhadores. 

Um dos desafios é o emprego digno, sem precarização. Os bancos são o setor que mais lucram na economia brasileira e, mesmo com esse lucro, demitem trabalhadores para reduzir seus custos. Em 12 meses, entre setembro de 2020 e setembro deste ano, os bancos eliminaram 6.763 postos de trabalho, isso durante a pandemia, uma das mais graves crises sanitárias da história. 

Na categoria bancária, as mulheres ocupam 49% do total de postos de trabalho e recebem, em média, 22% menos que os dos homens.

Lutamos também pela manutenção da política de aumento real e de ampliação na participação nos lucros e resultados (PLR). Há muitos anos os bancos ganham muito e isso tem de ser bem distribuído com os bancários que constroem este resultado.

Outra reivindicação é que a aplicação de tecnologia precisa de fato gerar ganhos para todos os agentes envolvidos no processo, ou seja, empresas, trabalhadores e consumidores. No entanto, não é o que se observa no caso dos bancos. Os clientes seguem pagando as mais elevadas taxas de juros e tarifas bancárias do mundo. E os bancários não tiveram suas jornadas reduzidas - ao contrário, há uma redução dos postos de trabalho e sobrecarga de trabalho. Com o aumento das metas para aumentar os lucros, a categoria bancária enfrenta índices crescentes e altíssimos de transtornos mentais e doenças causadas por esforços repetitivos.

Somos uma categoria mobilizada e forte, referência para os trabalhadores. E estamos mobilizados para manter os direitos conquistados na nossa Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) e avançar nos direitos dos bancários. 

 

 

Por: Danilo Motta