Danniel Barbosa: “Pessoas dão mais de si quando se sentem seguras para serem quem são”

Sócio do BVA - Barreto Veiga Advogados fala sobre as iniciativas lançadas pelo escritório e traça um panorama sobre a inserção de minorias no mercado jurídico

Posted Monday, February 21st 2022
Danniel Barbosa: “Pessoas dão mais de si quando se sentem seguras para serem quem são”

Leaders League.  Na sua avaliação, como o mercado jurídico vem acompanhando o avanço e a consolidação das pautas de Diversidade & Inclusão?

Danniel Barbosa. O Brasil é um dos países com mais advogados e advogadas do mundo, então, pelo que tenho experenciado e visto no mercado, os maiores avanços em Diversidade & Inclusão ainda estão muito restritos às grandes bancas de advocacia no país. Ainda que haja o interesse genuíno das pessoas inseridas nessas bancas de tornar o mercado jurídico mais inclusivo e diverso, acredito que esse avanço e consolidação também seja, em parte, um reflexo das políticas e programas de D&I implementadas pelos clientes atendidos pelos escritórios de advocacia, em muitos dos quais a D&I é pauta central ou de muita importância para estratégia de negócio. É importante que o mercado comece a considerar, cada vez mais, a trajetória e o potencial das pessoas, além do currículo, uma vez que permite com que sejamos cada vez mais inclusivos e possamos diminuir barreiras que muitas vezes não permitem que talentos estejam nas empresas.

Vocês fizeram um processo seletivo para contratação de um estagiário trans. Como o mercado jurídico pode se movimentar para incluir grupos historicamente marginalizados?

Quem nunca ouviu dizer que as bancas X, Y ou Z contratam pessoas somente de “faculdades de primeira linha”? Acredito que este é um dos maiores entraves quando falamos de inclusão em escritórios de advocacia ou no mercado jurídico em geral, pois, infelizmente, a realidade de muitas das pessoas que pertencem aos grupos historicamente e socialmente minorizados, não as permite ingressar nestas faculdades de primeira linha, e isso não quer dizer que não possam se tornar profissionais de primeira linha. 

Quais outras iniciativas o BVA tem adotado no sentido de promover D&I?

Após a publicação do processo afirmativo para pessoas trans, passamos anunciar nossas vagas com o dizer de que “todas as pessoas são bem-vindas”, para que as pessoas saibam, desde este primeiro contato com o escritório, que prezamos pela inclusão e, principalmente, respeito a todas as pessoas que vierem a integrar nosso time. Além disso, em junho de 2020, nos tornamos um escritório signatário do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, o que nos trouxe e continua trazendo muito aprendizado acerca das melhores práticas de diversidade e inclusão para pessoas LGBTI+, isso em decorrência dos comitês que participamos e dos 10 compromissos que assumimos com o Fórum. Temos a intenção, ainda, de participar de outros pactos e fóruns do mercado corporativo para outros grupos de diversidade.

Em outubro de 2020 instituímos o Comitê de Diversidade e Inclusão do BVA, que será responsável para criação e implementação de ações internas e externas. O primeiro projeto lançado pelo Comitê foi o edital de advocacia pro bono voltado para instituições, organizações e coletivos sem fins lucrativos que tenham como objetivo a promoção do empreendedorismo de pessoas negras. Lançamos este edital no Dia da Consciência Negra e estamos em fase de seleção da organização que será assessorada pelo escritório por período determinado.

Recentemente nos unimos a uma instituição de São Paulo que presta suporte psicossocial, cultural e jurídico às pessoas trans, e estamos assessorando, a título de pro bono, algumas das pessoas vinculadas à instituição com os trâmites e custos para retificação de nome na certidão de nascimento, algo de extrema relevância para a população trans. Embora este processo tenha sido “desburocratizado” pelo CNJ em 2018, que autorizou os cartórios a promoverem as retificações sem a necessidade de autorização judicial, o seu acesso ainda é muito restrito em decorrência dos custos envolvidos e dos preconceitos enfrentados pelas pessoas no processo de retificação. 

O mercado jurídico tende a ser bastante conservador e tradicional. Como você avalia a recepção destas iniciativas do BVA neste meio?

Compartilhamos o projeto de retificação de nome das pessoas trans com alguns clientes do escritório, com intuito de buscarmos incentivos para maximização do alcance das retificações assessoradas. Esta foi a primeira vez que pudemos avaliar de forma mais próxima a percepção sobre uma de nossas iniciativas de D&I, e tivemos retornos muito gratificantes, o que nos demonstra que o que estamos fazendo faz sentido não só para nós, mas também para algumas das pessoas inseridas em nosso meio. 

Como a adoção das pautas de D&I por parte do BVA se reflete na inovação?

Ainda temos um longo caminho a percorrer no BVA, estamos aprendendo a cada dia com os nossos erros e acertos, mas acreditamos que as pessoas dão mais de si quando se sentem seguras para serem quem são e não têm que se esconder com receio de sofrerem preconceito em um dos locais onde passam boa parte de suas vidas, que é o ambiente de trabalho, seja ele jurídico ou não. E isso reflete diretamente nas entregas que essas pessoas estão dispostas a fazer.