Série Especial: Burnout no mercado jurídico (Parte 2)

Veröffentlicht am 21. März 2022

Profissionais acometidos pela síndrome de burnout enquanto atuavam em escritórios de advocacia relatam as suas experiências pessoais e contam como o tema é tratado pelas lideranças. Por outro lado, o RH de escritórios líderes detalha as inciativas de bem-estar e como cuidam da saúde mental dos colaboradores.

“É um sentimento de desgaste emocional com esvaziamento afetivo. A pessoa vai se desvinculando daquele objeto de trabalho com o qual sempre se comprometia a trabalhar. Vai tendo uma reação negativa, vontade de se afastar desse objeto. Era muito descrito para enfermeiros, cuidadores que se dedicam tanto a um paciente que não conseguem mais olhar diferente para o trabalho. Mas pode acontecer em qualquer trabalhador. É um quadro que tem três dimensões básicas: exaustão, despersonalização e afastamento, e diminuição do envolvimento pessoal no trabalho.” 

A explicação da Dra. Maria Maeno, médica e pesquisadora da Fundacentro - Fundação Jorge Duprat Figueiredo, de Segurança e Medicina do Trabalho, descreve a sensação vivida pelos profissionais acometidos pela síndrome do Burnout – cujos sintomas infelizmente são familiares para 84% dos advogados que participaram da pesquisa da Leaders League Brasil sobre esgotamento mental nos escritórios de advocacia. 

Ao longo de janeiro e fevereiro, a pesquisa da Leaders League Brasil ouviu cerca de 100 profissionais sobre as condições de trabalho no mercado de advocacia brasileiro. O primeiro artigo da série expõe números alarmantes sobre o estado atual do mercado jurídico, e os relatos trazidos pelos advogados neste segundo artigo são igualmente preocupantes. 

É um sentimento de desgaste emocional com esvaziamento afetivo. A pessoa vai se desvinculando daquele objeto de trabalho com o qual sempre se comprometia a trabalhar.

Os temas mais recorrentes nos relatos anonimizados dos respondentes são sobrecarga de trabalho somado a uma exigência para que os advogados apresentem um ambicioso número de horas mensais passíveis de cobrança aos clientes. Segundo advogados que participaram da pesquisa, a prática é incentivada pelos próprios sócios.

“O escritório sempre se disse preocupado com a qualidade de vida das pessoas, [com] poucos casos por profissional, mas não é verdade. Só é valorizado quem faz mais de 200 horas reais por mês. Com o stress do trabalho, já virei noites sem conseguir dormir por ansiedade, tive problema cardíaco e de pressão alta”, conta um profissional do departamento de Concorrencial de um escritório que tem entre 30 e 50 advogados. Ele relatou trabalhar, em média, de 50 a 60 horas semanais.

“Não é raro o burnout em grandes escritórios de advocacia. Os próprios sócios falam que o alto ritmo seria um estilo de vida, e a cada ano mais colaboradores sofrem com esse quadro”, acrescentou um tributarista de um escritório com mais de 100 advogados, que relatou trabalhar mais de 60 horas por semana.

Outro ponto destacado é o desrespeito ao horário de descanso dos profissionais. Chamadas fora do horário de expediente e cobranças via WhatsApp – inclusive pelo número pessoal do advogado – são recorrentes de acordo com os relatos recebidos. 

Com o stress do trabalho, já virei noites sem conseguir dormir por ansiedade, tive problema cardíaco e de pressão alta.

“Acaba gerando uma autocobrança excessiva, de fazer o papel de três ou mais pessoas e considerar como normal, sem se dar conta disso. A responsabilidade [com o trabalho] acaba sendo colocada acima da saúde física. [Tive] exames desmarcados por ausência de tempo, até culminar numa cirurgia de endometriose infiltrativa, [além de] crises de choro sozinha ao deitar, sem nem entender por quê. Sono inquieto, sensação de fracasso na administração de tempo (tratado via Coaching), a não imposição de limite aos horários de chegada e envio de mensagens... Tudo isso vai gerando um sentimento de invasão, de que tudo é urgente, quando na verdade o senso de urgência das pessoas está invertido. A terapia é essencial, além das ferramentas terapêuticas”, descreveu uma advogada de Contencioso Cível de um escritório com mais de 100 advogados. Ela conta que costuma trabalhar cerca de 50 a 60 horas semanais.

Burnout e vida pessoal

O Burnout afeta diretamente a vida pessoal dos trabalhadores que são acometidos pela síndrome. Não só a exaustão mental em si, mas também as causas da doença: excesso de trabalho impossibilitando que sobre energia para entretenimento e demais atividades, trabalhos aos finais de semana, tirando um tempo que deveria ser dedicado ao descanso, e expedientes longos, fazendo com que seja necessário desmarcar compromissos pessoais. 

“São muitos prazos, clientes solicitando entregas de petições complexas de um dia para o outro, sendo meu dever sempre falar ‘sim, estou à disposição, vou entregar no dia e horário combinados’. Não nos é permitido negociar prazos de entrega e muito raramente terá outra pessoa para te ajudar nessa demanda. A urgência virou hábito. No final do primeiro ano de trabalho, terminei um relacionamento por simplesmente não ter tempo de ver meu parceiro, e quando o via, estava cansada e não queria fazer nada ou falar de outra coisa senão trabalho. E eu estava triste. É bastante tabu falar destes assuntos no escritório. Você é visto como alguém que está fazendo corpo mole ou não aguenta o ritmo. ‘O problema não é o excesso de trabalho, pois é assim em todo lugar; você que não sabe gerenciar adequadamente o seu tempo’, disseram os meus superiores. Já pensei em desistir da profissão, não é o primeiro escritório ‘altamente recomendado’ que eu trabalho que age desta maneira comigo. Sempre gostei de estudar e não comecei meu mestrado ainda por falta de tempo e energia. Você só consegue ganhar dinheiro se vender a sua vida para isso – e eu não estou brincando quando me refiro a todos os âmbitos da vida”, contou uma advogada de Contencioso Cível.

A alta incidência de Burnout afeta de forma ainda mais grave as mulheres – em especial, aquelas que são ou pretendem ser mães. 

Os próprios sócios falam que o alto ritmo seria um estilo de vida, e a cada ano mais colaboradores sofrem com esse quadro.

“Problemas para dormir, cansaço, preocupação, me achava incapaz e com muito medo sempre. O tratamento dos chefes no escritório e o estresse, as cobranças por trabalhos mais rápidos e sem defeitos. Ainda há exigências de responder cada vez mais rápido os clientes. Vários casos de injustiças relacionados a não promoção de mulheres que escolheram engravidar, enquanto homens mais jovens são promovidos automaticamente”, disse uma profissional que atua na área de Societário de um escritório com mais de 100 advogados. 

O que os escritórios dizem sobre o Burnout

A Leaders League Brasil entrou em contato com alguns dos principais escritórios do Brasil, todos ranqueados como Líder em ao menos um dos nossos rankings. O escritório Ernesto Tzirulnik Advocacia, líder em Seguros e Resseguros, afirmou que a banca não tem experiências com o Burnout em seu quadro de advogados.

“O escritório, sendo uma pequena boutique especializada, permite relações muito calorosas e solidárias e não tem experiência com Burnout. Quadros depressivos foram raríssimos e suportados com cuidados pessoais como aliviamento de trabalhos e manifestações de carinho. O volume (quantidade) de trabalho é bastante moderado, pois o escritório cuida apenas de processos estratégicos especializados, isso resultando em ritmo que não sobrecarrega os advogados e apoios paralegais”, afirmou o sócio Ernesto Tzirulnik em nota. 

O Dannemann Siemsen Advogados, escritório líder em Direitos Autorais e depósito e contencioso de marcas e patentes, informou que possui um canal aberto com a equipe de RH para suporte aos gestores e colaboradores em todas as questões relacionadas a saúde mental, com indicação de contatos de profissionais especializados. O escritório afirmou que o canal já existia antes da pandemia e se manteve em funcionamento durante a crise sanitária. 

Em nota, o escritório listou quatro iniciativas: 1) O envio de informativos periódicos com dicas de saúde mental e emocional, sinalização de possíveis sintomas de estresse e burnout e indicação de contatos para suporte profissional; 2) uma série de Webinars promovida pelo DS Elas, projeto das sócias do escritório para debater questões de liderança, saúde emocional e desenvolvimento feminino; 3) atividades e palestras promovidas durante a Sipat (Semana Interna de Prevenção de Acidentes no Trabalho), realizada anualmente; e 4) um canal de atendimento psicológico e psiquiátrico online para todos os gestores e colaboradores através da seguradora de saúde que atende a firma. 

“Nossas iniciativas cobrem todos os gestores e colaboradores. Assim, além dos advogados, profissionais de todas as áreas de atuação, times administrativos etc.”, diz a nota. 

O Demarest Advogados, líder em áreas como M&A e Contencioso Civil e Comercial, afirmou que a área de recursos humanos faz o acompanhamento necessário, inclusive orientando o afastamento para realização do tratamento, caso seja necessário, além de acompanhamento médico. Em nota, a diretora de Recursos Humanos, Silvana Brock, listou uma série de iniciativas, como o programa D Balance, parceria com o Programa de Apoio Pessoal Auster, palestras e outras. 

“Adicionalmente, o Demarest anunciou ainda a retomada do trabalho no modelo híbrido, trazendo mais flexibilidade e bem-estar aos colaboradores, que passam parte da semana trabalhando remotamente, em escala que varia conforme a área de atuação e necessidade de realizar as atividades presencialmente, permitindo alinhar o trabalho presencial à rotina pessoal. Com isso, o escritório passou a oferecer horários mais flexíveis, dress code menos rígido e novas regras de reunião”, explicou. 

Por fim, a diretora listou algumas práticas que o escritório adota com objetivo de garantir equilíbrio no trabalho, como treinamentos digitais com sócios e gestores; rodas de conversas lideradas pelo RH; incentivo à desconexão após a jornada de trabalho; e flexibilidade de horários, de acordo com a validação do sócio ou diretor, mediante alinhamento prévio com a equipe e respeitando as características dos trabalhos realizados.

 

Por: Ana Luisa Ferrari, Ana Paula Ibanhez, Daniel Dias, Danilo Motta e François Le Grand