Série Especial: Burnout no mercado jurídico (Parte 1)

Veröffentlicht am 14. März 2022

A Leaders League Brasil lança uma série de reportagens sobre a crise de esgotamento e problemas de saúde mental entre profissionais que atuam em escritórios de advocacia brasileiros.

No 1º de janeiro, a atualização da Classificação Internacional de Doenças entrou em vigor, tipificando a síndrome de Burnout como um transtorno de ordem laboral. O texto define ‘Burnout’ como uma síndrome resultante de um estresse crônico de trabalho. É caracterizada por três dimensões: 1) sentimento de esgotamento de energia ou exaustão; 2) aumento do distanciamento mental no trabalho, ou sentimento de negatividade relacionado ao trabalho; e 3) sensação de ineficiência ou de incapacidade de cumprir suas tarefas. 

Em 2020, foi registrada alta de 26% na concessão de auxílio-doença e aposentadoria por invalidez decorrente de transtorno mentais e comportamentais em comparação ao ano anterior, com mais de 576 mil afastamentos, o que configura recorde absoluto. Os dados são do Ministério do Trabalho e Previdência. No entanto, ainda de acordo com a pasta, no mesmo período, apenas 610 benefícios foram concedidos especificamente por incapacidade temporária (o antigo auxílio-doença) com o rótulo de Esgotamento (Burnout). Em 2021, foram ainda menos: 554 benefícios.

Para Dra. Maria Maeno, médica e pesquisadora da Fundacentro - Fundação Jorge Duprat Figueiredo, de Segurança e Medicina do Trabalho, pode estar ocorrendo uma subnotificação dos casos por uma série de razões. 

Todos sabem que há uma subnotificação crônica de qualquer doença relacionada ao trabalho. No caso do burnout é mais grave porque pode ser confundido com outros: depressão e ansiedade podem ter relação com o burnout, por exemplo.

“Quem emite a Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) é a empresa, mas outras instituições podem também emitir, como sindicatos e a autoridade sanitária. Entretanto, o principal emissor de CAT é a própria empresa. Todos sabem que há uma subnotificação crônica de qualquer doença relacionada ao trabalho. No caso do burnout é mais grave porque pode ser confundido com outros: depressão e ansiedade podem ter relação com o burnout, por exemplo. Então, primeiro a gente precisa de um diagnóstico preciso, que às vezes a gente não consegue ter. Tem isso e tem a barreira de emissão de CAT. Há uma grande chance de subnotificação”, detalhou. 

Com base nestes fatos, a Leaders League Brasil lança uma série especial sobre a saúde mental no mercado jurídico brasileiro, focando nos advogados que atuam em escritórios de advocacia. Ao longo das próximas semanas, serão publicados uma série de artigos para aumentar a visibilidade sobre a síndrome de burnout, gerar reflexões sobre este problema de saúde pública e levantar um amplo debate sobre o tema do bem-estar no mercado de trabalho jurídico. 

Em fevereiro, realizamos uma extensa pesquisa com cerca de 100 advogados de escritórios de todo o país para ouvir – de forma anônima - sobre as suas experiências e sobre o dia a dia nos locais de trabalho. Os dados coletados pela Leaders League Brasil são preocupantes. Segundo as informações recebidas, 84% dos respondentes já tiveram alguns dos sintomas da burnout em decorrência do excesso de trabalho. O Ministério da Saúde aponta que os sintomas abrangem desde cansaço e insônia até alterações nos batimentos cardíacos, pressão alta e problemas gastrointestinais. Outro dado ainda mais preocupante: foram registradas 51,1% de respostas positivas quando os advogados foram questionados se já fizeram uso de antidepressivos ou ansiolíticos especificamente para lidar com o excesso de trabalho; 62,8% afirmaram, também, já ter feito acompanhamento psicoterapêutico em decorrência do volume de trabalho.

Foram registradas 51,1% de respostas positivas quando os advogados são questionados se já fizeram uso de antidepressivos ou ansiolíticos para lidar com o excesso de trabalho; 62,8% afirmaram, também, já ter feito acompanhamento psicoterapêutico em decorrência do volume de trabalho. 

A pesquisa mostra, ainda, que 93,6% atribuem à sobrecarga de trabalho as intercorrências na saúde mental.  Cabe ressaltar que o modelo de empregabilidade tradicionalmente adotado em escritórios de advocacia – majoritariamente voltados à contratação de associados em detrimento de celetistas – dificulta a análise de dados pelos órgãos públicos face à concessão e registro de afastamentos por incapacidade temporária.

“O burnout é uma resposta a um prolongamento de estressores crônicos. Pesquisas apontam que alguns estressores comuns são sobrecarga de trabalho, aumento de metas em tempo recordes, ter que estar de prontidão o tempo todo para determinadas atividades. Essas exigências exageradas que tendem a ocorrer contribuem muito para o problema”, explica Dra. Maeno.  

Excesso de trabalho como causa do burnout

Na pesquisa realizada pela Leaders League, 57,5% dos respondentes afirmaram que trabalham mais de 50h por semana – em 21,3% dos casos, a jornada semanal supera as 60h, o que daria uma média de mais de 12h de trabalho diárias, descontados os fins de semana. Para 70,2% do total de participantes, a carga horária é excessiva – algo que 95,7% consideram uma prática glamourizada na advocacia.

Para a Dra. Maeno, a pandemia contribuiu para aumentar o volume de demandas sobre trabalhadores, em decorrência da maior conectividade via plataformas digitais. 

“As pessoas trabalham muito fora de horário, isso é crônico. Acaba se tornando um fator de estresse para as pessoas, e isso é algo que as firmas podem lidar analisando a carga de trabalho, as capacidades que as pessoas têm de fazer pausas e trabalhar normalmente, mas nem sempre as empresas estão atentas. O movimento tem sido de redução de trabalhadores, mesmo mantendo ou aumentando a carga de trabalho”, explicou.

Em 2020, houve mais de 576 mil afastamentos por transtornos mentais e comportamentais, o que configura recorde absoluto. 

Se para muitos profissionais, a flexibilidade trazida pelo teletrabalho é vista positivamente, para 47,9% dos advogados que participaram da pesquisa feita pela Leaders League, a implementação do teletrabalho teve um impacto negativo sobre a saúde mental. 

“Cada empresa precisa identificar quais são esses estressores, fazendo um levantamento junto aos colaboradores para conseguir reverter o problema”, completou Dra. Maeno.

Postura dos escritórios face ao Burnout

A reportagem entrou em contato com alguns dos principais escritórios de advocacia em atividade no país – todos ranqueados como Líderes em alguma das áreas de prática ranqueadas pela Leaders League Brasil. Dentre as bancas procuradas, o Machado Meyer Advogados afirmou que possui uma área de Recursos Humanos atuando de maneira estratégica para desenvolver ações que favoreçam a gestão da saúde emocional dos colaboradores do escritório. O sócio-gestor Tito Andrade explica que a firma desenvolveu programas voltados à saúde mental e com a participação dos gestores. Ele menciona o Programa Equilibrar, que conta com consultorias especializadas em saúde mental, incluindo palestras e a criação de um podcast.

“Diante do excelente resultado, o escritório manterá ao longo de 2022 as ações e programas que deram certo no ano passado. Além disso, iremos intensificar o alinhamento com a liderança e expandir os treinamentos sobre o tema, além do atendimento psicológico, que passará a contar com um espaço físico dedicado em nosso escritório para apoio aos colaboradores”, detalhou. 

Já o BMA Advogados, por sua vez, afirmou que tem temas de saúde física e mental dos colaboradores como prioridade, e que o departamento de Recursos Humanos faz todo o acompanhamento necessário em caso de diagnóstico neste sentido. Além disso, o escritório afirmou que vem intensificando ações de prevenção e atendimento às demandas de saúde mental dos advogados. 

“Há cerca de 1 ano foi formado o Comitê de Bem-Estar, focado nas questões relacionadas à saúde mental e responsável pela elaboração de uma série de ações internas para dar luz a este tema com o objetivo de estabelecer um ambiente de trabalho cada vez mais saudável e colaborativo”, afirmou, em nota, Felipe Evaristo dos Santos Galea, sócio gestor de Recursos Humanos. O gestor completa que o escritório contratou uma assessoria especializada, que auxiliou na elaboração de uma série de treinamentos e webinars com feedback anônimo dos participantes, dentre outras iniciativas. “Ainda em 2021, circulamos vários comunicados internos focados no tema, com destaque para a agenda especial do Setembro Amarelo e ações de auto cuidado no dia da Saúde Mental (10 de outubro), além de cartilhas preparadas com recomendações para melhor administração do tempo e redução de tensões. Em janeiro de 2022, o BMA promoveu o Janeiro Branco, que contava com recomendações diárias para preservação saúde mental e, agora em fevereiro, o Comitê de Bem-Estar já está preparando uma programação de atividades, online e ao ar livre, com base em informações submetidas pelos próprios integrantes do escritório através do BMA Esportes”, completou.

Os demais escritórios abordados pela Leaders League não responderam à solicitação. 

Perfil dos advogados

Os advogados participantes da pesquisa afirmaram que em 41,5% dos casos, o escritório onde trabalham não adota ou cumpre práticas de bem-estar. Para 39,4% deles, as práticas são implementadas de forma insuficiente. Apenas 19,1% se mostraram satisfeitos com as iniciativas de seus empregadores. 

A pesquisa contou com a participação de advogados que atuam em escritórios de diversos portes: 44,7% dos participantes atuam em escritórios com até 30 advogados; 34%, em firmas com mais de 100 advogados. Os dados reforçam o entendimento de que o problema não é circunscrito apenas a determinadas estruturas. 

Sobre as áreas de prática com maior participação, Contencioso Cível lidera, com 22,3% dos advogados abordados pela Leaders League na pesquisa. Direito Tributário aparece na sequência, com 12,8%; Societário fica na terceira posição, com 10,6%.

Leia aqui a parte 2

 

Por: Ana Luisa Ferrari, Ana Paula Ibanhez, Daniel Dias, Danilo Motta e François Le Grand